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Perspectivas econômicas · Inteligência econômica

A economia depois da eleição

A eleição está decidida. A conta fiscal continua a mesma. Cenários fiscais, custo de capital e decisões empresariais para 2027–2030.

AutoresIsmael SantosErik Figueiredo
PublicaçãoOutubro de 2026
Leitura36 min
Edição originalPDF, 20 páginas
Capa do estudo A economia depois da eleição

Nossa posição

A eleição define o caminho. A aritmética fiscal não muda.

Em uma frase: O novo mandato começa com dívida em alta e juros elevados por mais tempo. Construímos três cenários para 2027–2030 e traduzimos seus efeitos sobre as empresas em premissas de orçamento e decisões de capital.

O presidente Lula foi reeleito ontem com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. O mercado reagiu com força: no fechamento, o Ibovespa recuou 13,9%, o dólar subiu 8,2% e os juros futuros de prazo mais longo avançaram 2,54 pontos. Parte do movimento reflete o desmonte de posições montadas para outro resultado e tende a se reverter; parte é reprecificação do risco fiscal.

Nossa leitura é estrutural, não partidária: não há solução fiscal de curto prazo. A dívida bruta está em 82,9% do PIB, os juros do governo central somam 8,1% do PIB em 12 meses e cerca de 90% da despesa primária é obrigatória por lei. Em todos os caminhos de política que simulamos, a dívida termina o mandato acima do ponto de partida.

O governo reeleito propõe manter o arcabouço fiscal, com meta de superávit de 0,5% do PIB em 2027. Duas mudanças já aprovadas entram nos orçamentos com data marcada: em janeiro de 2027, a CBS substitui o PIS e a Cofins; em meados de dezembro, a jornada máxima cai para 42 horas semanais, e para 40 horas um ano depois.

Para as empresas, o efeito central é um custo de capital elevado por mais tempo. E elas partem de uma posição frágil: em 2025, a companhia aberta típica obteve retorno de 9,9% sobre o capital investido, para um custo de capital de 17,1%; medida empresa a empresa, a diferença mediana foi de 6,7 pontos.

Construímos três cenários para juros, câmbio, inflação e atividade e medimos seus efeitos sobre o retorno, o custo de capital e o caixa das empresas. A orientação que deles resulta tem três partes: orçar 2027 no cenário Central, que usa os juros precificados hoje (Selic média de 14,75%) e supõe a regra fiscal inalterada; dimensionar caixa e dívida no cenário Adverso; e recalcular o custo de capital antes de aprovar investimentos. Para quem tem balanço sólido, a reprecificação também abre oportunidades de aquisição.

Os números do Central partem de um dia de tensão máxima e serão confirmados à medida que o mercado se acomodar. A conclusão não depende deles: com retorno abaixo do custo de capital e juros altos por mais tempo, o orçamento de 2027 precisa ser revisto sob a ótica do valor econômico. Recomendamos que cada empresa revise suas premissas à luz desses cenários e teste resultado, caixa e cláusulas de dívida no Adverso antes de aprovar o plano.

A eleição muda as expectativas. A disciplina na alocação de capital continua sendo o que separa empresas que criam valor daquelas que apenas sobrevivem.

Porto Alegre, 26 de outubro de 2026.

Ismael Santos · Sócio fundador

Erik Figueiredo · Sócio · Inteligência Econômica

O dia seguinte

O mercado reprecificou o Brasil em um pregão.

−13,9%Ibovespa (fechamento); mínima de −17,3% e circuit breaker às 9h57
R$ 5,403Dólar comercial (fechamento), +8,2%; PTAX do dia R$ 5,50
15,195%DI janeiro/2035 (fechamento), +2,54 pontos
−26,9%Índice de small caps (fechamento): empresas domésticas e alavancadas
IndicadorFechamento, 23/10Fechamento, 26/10Variação
Ibovespa, pontos205.089176.608−13,9%
Dólar comercial, R$4,9935,403+8,2%
DI janeiro/2028, % a.a.12,82514,905+2,08 pontos
DI janeiro/2035, % a.a.12,65515,195+2,54 pontos

Fonte: InfoMoney e Money Times, fechamento de 26/10/2026; PTAX de venda (R$ 5,5007): Banco Central, SGS 1. Todas as variações comparam o mesmo indicador na mesma base; a PTAX é informada à parte. O Tesouro cancelou os leilões da semana e recomprou cerca de R$ 7,1 bilhões em prefixados.

Leituras do mercado sobre a causa

  • Fiscal: analistas citam a incerteza sobre as contas públicas a partir de 2027 e o risco de medidas expansionistas sem compensação (Ouro Preto, Capital Economics). O BTG afirma que a equipe econômica e medidas concretas definirão a duração da pressão.

Leituras que relativizam o movimento

  • Posicionamento: parte dos investidores havia comprado ações e vendido dólar apostando no outro resultado (Wiser, Janus Henderson). O Banco Central avalia que parte da desvalorização pode se reverter; a Gavekal vê oportunidade de compra.

Leitura Altoris

Para o orçamento importa menos a queda do dia do que o nível em que a curva de juros vai se acomodar, isto é, quanto o mercado vai cobrar para emprestar por prazos longos. Com o DI de janeiro de 2028 em 14,905%, acima da Selic de 13,75%, o mercado deixou de embutir os cortes que o consenso pré-eleição previa para 2027 (fim de ano em 11,75%). É essa curva que ancora o cenário Central desta carta.

O mercado reagiu ao que espera do novo mandato. O que o governo eleito propõe?

A agenda do governo eleito

O que foi proposto, o que já está aprovado e o impacto nas empresas.

O programa de governo e as declarações recentes indicam continuidade das regras atuais, com meta de superávit de 0,5% do PIB em 2027 e ampliação do investimento público. O grau de detalhamento varia entre as medidas.

TemaSituaçãoImpacto nas empresas
Regra fiscalProposta: manter o arcabouço. Meta de superávit de 0,5% do PIB (R$ 73,2 bilhões) em 2027, em votação no Congresso. O ministro da Fazenda discute gatilhos para conter despesas obrigatórias.A credibilidade da meta define o prêmio nos juros e no câmbio: é a principal premissa do orçamento.
Jornada de trabalhoEmenda Constitucional nº 141, promulgada em 16/10. O Senado aprovou em 14/10 o fim da escala 6x1 (75 a 1 nos dois turnos). Escala 5x2 e 42 horas semanais 60 dias após a publicação, em meados de dezembro de 2026; 40 horas 14 meses após, sem redução salarial.Custo certo a partir de dezembro, com data: custo por hora, escalas e quadro no varejo, nos serviços e na indústria em turnos.
Reforma tributáriaLei em vigor. Em 2027 a CBS substitui o PIS e a Cofins, o IPI é zerado (exceto Zona Franca) e começa o Imposto Seletivo. Alíquota de referência de IBS e CBS estimada em 27,91%.Preços, contratos, créditos, sistemas e capital de giro em 2027.
Salário mínimoRegra vigente: inflação mais o PIB de dois anos antes, com ganho real limitado a 2,5% ao ano.Custo de pessoal e demanda das famílias de menor renda.
Investimento e crédito públicoProposta: nova edição do Novo PAC, concessões, Nova Indústria Brasil, crédito do BNDES, fundos garantidores para pequenos negócios e Plano Safra maior.Oportunidades em infraestrutura e linhas incentivadas; em contrapartida, mais demanda por crédito.
ImpostosMantidas a isenção do IR até R$ 5 mil e a tributação de fundos exclusivos e offshores. Proposta de "justiça tributária" e revisão de "privilégios e distorções", sem detalhamento.Risco sobre benefícios e regimes especiais setoriais.

Fonte: programa de governo, conforme Forbes Brasil (6/10/2026) e InvestNews; meta de 2027: proposta do Executivo ao Congresso; jornada: Senado Federal, 14/10/2026, e EC nº 141/2026 (Diário do Grande ABC, Poder360); reforma tributária: Lei Complementar 214/2025 e Comitê Gestor do IBS.

Leitura Altoris

Nenhuma das propostas altera, por si, a conta que leva a dívida para cima: a despesa obrigatória crescendo acima do PIB e os juros sobre um estoque de 82,9% do PIB. O sinal mais relevante para as premissas das empresas é a regra de contenção das despesas obrigatórias: se for crível, tende a reduzir o prêmio de risco embutido nos juros; sem ela, o prêmio permanece.

Se nenhuma proposta muda a conta, por quê? Começamos pelo destino do dinheiro.

Para onde vai o dinheiro

Os juros já custam o mesmo que a Previdência.

Governo central, R$ bilhões, 12 meses até agosto de 2026 · Arrecadação e receita
ItemValor
Imposto de Renda912 bi
Contribuição ao INSS758 bi
Cofins e PIS/Pasep523 bi
IPI, IOF, importação e outros372 bi
Royalties, dividendos e outras339 bi
CSLL192 bi
Arrecadação3,10 tri
Repasses a estados e municípios608 bi
Receita líquida2,49 tri
Necessidade de financiamento1,15 tri
Gasto3,64 tri
Governo central, R$ bilhões, 12 meses até agosto de 2026 · Destino do gasto (3,64 tri)
DestinoValor% do gasto
Juros da dívida1,08 tri30%
Previdência (INSS)1,09 tri30%
Pessoal ativo e inativo429 bi12%
Demais obrigatórias320 bi9%
Discricionárias245 bi7%
Saúde e educação189 bi5%
Bolsa Família154 bi4%
BPC (idosos e PcD)135 bi4%

Fonte: Receitas e despesas primárias: Tesouro Nacional, Resultado do Tesouro Nacional (RTN). Juros nominais do governo central: RTN, apurados pelo Banco Central, 12 meses até agosto (no setor público consolidado, 8,9% do PIB). Elaboração Altoris.

Leitura

À esquerda, o que o governo central arrecada, por tributo: R$ 3,1 trilhões em 12 meses. Ao centro, os R$ 608 bilhões repassados a estados e municípios e a receita que fica com a União, R$ 2,5 trilhões. À direita, o destino do dinheiro, inclusive os juros. As bases são diferentes: receitas e despesas primárias vêm do Tesouro; os juros, do Banco Central.

O que significa

A União gastou R$ 2,56 trilhões fora os juros, mais do que arrecadou, e mais R$ 1,08 trilhão com juros (8,1% do PIB), valor praticamente igual ao da Previdência. A diferença, R$ 1,15 trilhão, é a necessidade de financiamento do período (o déficit nominal), e não a emissão bruta de títulos, que também inclui a rolagem da dívida que vence.

Esse desequilíbrio é recente?

Trinta anos de contas

Desde 2014 a despesa supera a receita, exceto em 2022, e os juros chegaram a 8% do PIB.

Governo central, % do PIB, 1997 a 2025 e 12 meses até agosto de 2026 · 2014: primeiro déficit primário · 2020: pandemia

Fonte: Tesouro Nacional (RTN) e Banco Central (PIB 12 meses, SGS 4382). Cálculo Altoris.

Leitura. Cada linha é uma conta medida como fatia do PIB, o que tira o efeito da inflação e permite comparar 1997 com 2026. A linha tracejada é o resultado primário: acima de zero, superávit; abaixo, déficit. O que significa. A receita está parada perto de 18% do PIB há duas décadas, enquanto a despesa subiu de 14% para 19%. Os juros do governo central chegaram a 8,1% do PIB, o maior nível da série. Conciliação. Nos 12 meses até agosto, receita líquida de 18,65% e despesa primária de 19,18% do PIB resultam em primário de −0,53%; os rótulos do gráfico mostram os valores arredondados.

Crescimento real médio anual, por período

Fonte: Tesouro Nacional (RTN) deflacionado pelo IPCA; PIB real: IBGE (SGS 7326).

Leitura. Cada grupo de barras é um período; a altura é o crescimento anual médio acima da inflação, com o PIB real como referência. O que significa. Em quatro dos cinco períodos, a despesa cresceu mais que a receita. A Previdência cresceu acima do PIB em quatro períodos e empatou no quinto, por regras de reajuste e pelo envelhecimento da população: é despesa que cresce sem decisão anual.

Se a despesa cresce por força de lei, quanto resta para decidir?

O espaço para decidir

Nove de cada dez reais já têm destino: o espaço para decidir é mínimo.

Composição da despesa primária federal, % do total

Fonte: Tesouro Nacional (RTN). Abertura disponível a partir de 2008; 12m: até agosto de 2026.

Leitura. Cada barra é a despesa de um ano, em fatias que somam 100%. Os tons escuros e cinza são despesas obrigatórias por lei; o verde são as discricionárias, que dependem de decisão anual. Hoje, menos de 10% da despesa é discricionária.

Juros, despesas discricionárias e investimento do governo central, % do PIB

Fonte: Tesouro Nacional (RTN) e Banco Central.

O que significa. Os juros custam 4,4 vezes as discricionárias e 10,6 vezes o investimento público. Em termos corporativos, equivale a uma despesa financeira dez vezes superior ao investimento. Por isso o ajuste depende de mudar regras das despesas obrigatórias, o que leva anos, e não de cortes anuais.

Com pouco espaço para cortar, o que faz a dívida crescer?

O que move a dívida

A dívida cresce mais pelos juros do que pelo déficit de cada ano.

Contribuição para a variação da dívida líquida, pontos do PIB acumulados no período

Fonte: Banco Central (SGS 4513, 4478, 5760, 5793) e PIB nominal. Cálculo Altoris.

Leitura. Cada barra decompõe quanto a dívida variou no período. À direita do zero, o que aumentou a dívida; à esquerda, o que reduziu; a linha preta é o resultado líquido. O que significa. De 2003 a 2013, superávits e crescimento superaram os juros e a dívida caiu 29,5 pontos. De 2020 a 2025, os juros somaram 37,5 pontos e não houve superávit para compensar.

Juro real da dívida (r) e crescimento real do PIB (g), % ao ano

Fonte: Banco Central (SGS 5760, 4478, 433) e IBGE (SGS 7326). Cálculo Altoris.

Leitura. A área sombreada mede a diferença entre o juro real e o crescimento, a força que eleva a dívida quando nada mais muda. O que significa. Quando o juro real supera o crescimento, a dívida aumenta por conta própria, mesmo sem novo déficit. É o cartão de crédito cujos juros crescem mais que o salário: em 2025, o juro real foi de 9,3% e a economia cresceu 2,3%. Para segurar a dívida, a sobra anual precisaria ser de cerca de 5,5% do PIB. Hoje é negativa.

Quais variáveis explicam esse movimento, e quais dependem de decisão de governo?

O que a história mostra

Crescimento, primário e juros: as variáveis que definem a trajetória da dívida.

Correlação anual entre variáveis fiscais e macroeconômicas, 2003 a 2025
SelicIPCAPIB realJuros (% PIB)Primário (% PIB)Δ Dívida líquida
IPCA0,23
PIB real0,11−0,10
Juros (% PIB)0,760,25−0,10
Primário (% PIB)0,520,170,700,15
Δ Dívida líquida−0,21−0,39−0,720,05−0,76
Δ Dívida bruta0,07−0,18−0,780,25−0,670,66

Fonte: Banco Central e IBGE. 23 observações anuais. Cálculo Altoris.

As relações mais fortes

PIB real × dívida bruta (−0,78): quando a economia cresce, a dívida cai como proporção do PIB. Primário × dívida líquida (−0,76): economia do governo reduz a dívida no mesmo ano. Selic × juros (+0,76): a política monetária chega rápido ao orçamento. PIB × primário (+0,70): crescer melhora a arrecadação.

Limites

São 23 observações, com choques em 2015–2016 e 2020. Os coeficientes são descritivos, não causais, e parte da relação entre PIB e dívida é a própria aritmética da razão dívida/PIB. Os juros pesam pouco na variação de cada ano, mas acumulam o maior efeito ao longo de uma década, como mostra a página anterior.

Leitura Altoris · Da história aos cenários

As três variáveis com relação mais forte com a dívida são também as que dependem de decisão do governo e do Banco Central: o primário responde à regra de despesa e às medidas de receita; o crescimento, ao ambiente de negócios e ao investimento; os juros, à credibilidade fiscal e à política monetária. Por isso os cenários da página seguinte variam exatamente essas três alavancas, combinadas em cinco caminhos de política, da inércia ao ajuste estrutural.

O que acontece com a dívida até 2036 em cada combinação de decisões?

Cenários 2026–2036

A dívida sobe no mandato em todos os caminhos; as reformas aparecem depois de 2030.

Dívida bruta do governo geral, % do PIB, por cenário · Ponto de partida comum em 2026

Fonte: Simulação Altoris (Monitor Fiscal); Banco Central; curva de juros de 26/10/2026; IFI, RAF nº 113.

CenárioDecisões de governo, a partir de 2027Selic média 2027 → 2030Primário 2030Dívida 2030Dívida 2036Regra de despesa
Choque máximoTeste de limite: despesa real −1% ao ano, obrigatórias congeladas, +1,5 ponto de receita13,5% → 9,0%+2,5%95,2%93%Não se aplica
Ajuste estruturalObrigatórias a 0,8% reais; teto real de 1%; +1 ponto de receita recorrente13,75% → 9,75%+1,3%102,2%112%Cumprida
Reforma moderadaObrigatórias a 2,0%; +0,5 ponto de receita recorrente14,25% → 10,75%0,0%107,8%139%Deixa de caber em 2032
InérciaArcabouço como está; obrigatórias a 3,3% reais14,75% → 12,5%−1,2%112,0%164%Deixa de caber em 2027
AfrouxamentoExceções ao teto; despesa a 3,5% real15,5% → 14,25%−2,4%118,0%210%Sem limite efetivo

Leitura. Todos os cenários partem de 82,9% do PIB no fim de 2026; as decisões de governo começam com a posse, e a Selic de cada caminho reflete a credibilidade da política fiscal (página seguinte). O que significa. Nenhum caminho reduz a dívida até 2030: estabilizá-la já em 2027 exigiria primário de cerca de 5,5% do PIB, ante −0,5% hoje. As reformas fazem diferença, mas o mandato que as faz não colhe o resultado; o seguinte colhe. Sensibilidade. Se o custo da dívida acompanhar a Selic a 25% ou a 50% ao ano, em vez de 35%, a dívida de 2030 e a de 2036 mudam até 2 pontos nos quatro primeiros cenários; no afrouxamento, até 5 pontos em 2036.

Qual o papel dos juros em cada trajetória?

Juros e dívida

A credibilidade do ajuste vale tanto quanto o próprio ajuste.

Selic média por cenário fiscal, % ao ano, 2026 a 2036

Fonte: Simulação Altoris (Monitor Fiscal). 2026: realizado e Focus. 2027–2030: curva de juros de 26/10/2026 e cenários de orçamento desta carta. Choque máximo segue caminho próximo ao do ajuste estrutural.

Cenário fiscalCenário de orçamentoSelic média 2027Selic média 2030Selic de longo prazoJuros sobre a dívida bruta 2036, % PIBDívida bruta 2036
Choque máximo—13,5%9,0%8,5%7,8%93%
Ajuste estruturalFavorável13,75%9,75%8,5%9,2%112%
Reforma moderada—14,25%10,75%9,5%12,3%139%
InérciaCentral14,75%12,5%10,0%15,1%164%
AfrouxamentoAdverso15,5%14,25%14,0%25,1%210%

Como a Selic entra na conta

Até 2030, a Selic de cada caminho parte da curva de juros de hoje e se afasta dela conforme a credibilidade fiscal: o ajuste estrutural corresponde ao cenário Favorável, a inércia ao Central e o afrouxamento ao Adverso. Depois de 2030, converge para um nível de longo prazo: 8,5% com ajuste crível, juro real perto de 5% com inflação na meta; 10% na inércia; no afrouxamento, cada ponto de alta anual da dívida acrescenta 0,25 ponto à Selic. O custo médio da dívida acompanha a Selic com defasagem, ajustando-se 35% ao ano.

O peso da credibilidade

O mesmo ajuste estrutural, sem a queda de juros que a credibilidade traz, termina 2036 com dívida de 131% do PIB, e não de 112%: cerca de 19 pontos de diferença, comparável às alavancas mais potentes da página seguinte. Quem já renegociou dívida conhece a lógica: o mesmo plano, apresentado com credibilidade, sai mais barato. A correlação histórica confirma o canal e o tempo: Selic e juros pagos andam juntos (0,76), mas o efeito sobre a dívida de cada ano é fraco (0,07), porque se acumula.

Leitura. Selic média do ano, não a de fim de período. 2026 é comum a todos os cenários. A partir de 2027, as três primeiras colunas da tabela vêm dos cenários de orçamento (Parte V); a Selic de longo prazo é premissa de cada cenário fiscal, não resultado do modelo.

Quais alavancas mudam a trajetória, e quando?

Alternativas de política

A alavanca mais potente é conter as despesas que crescem automaticamente.

AlavancaHipótese testada (contra a inércia), a partir de 2027Dívida 2030Dívida 2036Contrapartida
Regra ancorada na dívidaTeto real de 1% e obrigatórias a 1%−3,1−22,7Exige reformas das obrigatórias para ser crível
Conter as obrigatóriasCrescimento real de 1,5% em vez de 3,3% (indexação, previdência, BPC, pisos e vinculações)−2,3−18,1Efeito distributivo; exige aprovação no Congresso
Crescimento maiorPIB real de 2,5% em vez de 2,0%−3,0−13,0Depende de produtividade
Receita recorrente+1 ponto do PIB até 2030 (revisão de gastos tributários)−3,0−10,8Eleva a carga de setores beneficiados
Custo de capital do paísCaminho de juros do ajuste estrutural (13,75% → 8,5%) em vez do Central (14,75% → 10%)−4,3−20,2Depende de credibilidade e do cenário externo

Efeito sobre a dívida bruta, em pontos do PIB, contra o cenário de inércia. Simulação Altoris (Monitor Fiscal), ponto de partida comum em 2026 e curva de juros de 26/10/2026.

Os efeitos não se somam linearmente. Combinadas no ajuste estrutural, as alavancas levam o primário a 1,3% do PIB em 2030 e praticamente estabilizam a dívida perto de 112% em 2036. Nesse ano, a conta de juros sobre a dívida bruta seria de 9,2% do PIB, contra 15,1% na inércia: a dívida é 52 pontos do PIB menor e o custo médio dela, 1,6 ponto mais baixo. Todas as alavancas têm contrapartidas, e a escolha entre elas é política; o que a aritmética mostra é o tamanho e o tempo de cada uma.

Pela lente da gestão baseada em valor

É a mesma recomendação que fazemos a uma empresa que destrói valor: atacar primeiro a estrutura de custos que cresce automaticamente, depois o custo do capital, e só então a receita. Receita extraordinária, como royalties e dividendos de estatais (1,5% do PIB em 12 meses), não deve financiar despesa permanente.

Juros elevados chegam às empresas pelo custo de capital. Em que posição elas estão?

Retorno, custo de capital e alocação

As empresas entram no ciclo destruindo valor, e a conjuntura pressiona os três lados da equação.

9,9%ROIC mediano das companhias abertas em 2025
−6,7 p.p.Mediana, empresa a empresa, do ROIC menos o próprio custo de capital (WACC mediano: 17,1%)
≈ 11,2%Custo mediano da dívida após IR (16,9% antes do imposto)
18%das companhias criaram valor em 2025 (ROIC acima do custo de capital)
Companhias abertas não financeiras da B3, medianas anuais, % ao ano

Fonte: Termômetro de Valor (Altoris), safra de 13/10/2026, 235 companhias. Custo da dívida após IR estimado com alíquota de 34%.

Retorno (ROIC)

Crescimento menor, margens pressionadas por câmbio e jornada, e mais capital de giro para financiar clientes reduzem o retorno. O ROIC mediano está parado perto de 10% desde 2022.

Custo de capital (WACC)

Juros mais altos e prêmio de risco maior elevam o retorno exigido e reduzem o valor presente de todo investimento. Quanto da alta de 2,1 a 2,5 pontos nos juros futuros chega a cada empresa depende de beta, estrutura de capital, prazo e financiamento; por isso a tratamos como sensibilidade, não como regra.

Alocação de capital

Preservar liquidez, revisar investimentos, desmobilizar ativos que não remuneram o próprio custo e reavaliar a estrutura de financiamento passam a ser as decisões centrais do orçamento.

Leitura. A linha verde é o retorno da empresa típica; a preta, o custo de todo o capital; a tracejada, o custo da dívida já descontado o benefício fiscal. Retorno abaixo do custo de capital é lucro contábil com destruição de valor econômico. O ICVA, índice anual da Altoris supervisionado pelo Comitê do Índice, do qual faz parte Erik Figueiredo, ficou em −5,9 em 2025: R$ 5,90 abaixo do custo do capital a cada R$ 100 investidos.

Leitura Altoris

Um retorno que fica, na mediana, 6,7 pontos abaixo do próprio custo de capital significa que, na empresa típica, cada real investido sem critério econômico destrói valor. A conjuntura não altera essa régua; reduz a margem de erro.

A pressão é a mesma para todas?

Por setor e por porte

Empresas menores operam com retorno menor e menos folga financeira.

A pressão não é homogênea. Entre as companhias abertas, as menores rendem menos e têm menos folga para absorver juros mais altos. Empresa a empresa, o ROIC do quartil menor ficou, na mediana, 10 pontos abaixo do próprio custo de capital, contra 5,2 pontos nos dois quartis maiores.

Por porte · Quartis de receita líquida, medianas de 2025
Receita anualEmpresasROICCusto de capitalDívida após IRCobertura de jurosCriam valorCobertura abaixo de 1,5x
Até R$ 1,1 bilhão (mediana R$ 460 milhões)596,9%18,4%12,4%1,2x20%41%
De R$ 1,1 a 3,1 bilhões5910,0%17,3%10,7%2,3x14%24%
De R$ 3,1 a 11,9 bilhões5910,1%16,5%10,7%2,1x20%32%
Acima de R$ 11,9 bilhões5811,2%16,3%11,2%2,0x17%36%

O que significa. No quartil de menor receita, o ROIC mediano foi de 6,9% contra custo de capital de 18,4%, a cobertura de juros foi de 1,2 vez e 41% das empresas pagaram juros com menos de 1,5 vez o lucro operacional. Se o custo de capital subir 2 pontos com a curva de hoje, a fatia das companhias que criam valor cai de 18% para 14%. A fatia que cria valor no quartil menor (20%) não é inferior à dos demais: o aperto aparece no retorno e na folga de caixa, não na proporção de empresas que criam valor. As empresas fechadas não estão nesta base, e companhias abertas, mesmo menores, têm acesso a capital e governança diferentes: os números são uma referência observável das pressões que também atingem as empresas fechadas, não uma medida do mercado de médias empresas.

Por setor · Setores com 7 ou mais companhias, medianas de 2025
SetorEmpresasROICCusto de capitalDiferençaDívida após IRCobertura de jurosCriam valorCiclo de caixa, dias
Construção civil e imobiliário348,1%17,0%−8,911,2%2,0x26%270
Varejo339,1%18,1%−9,011,2%1,9x9%43
Energia elétrica2610,6%14,1%−3,510,2%2,8x15%17
Bens de capital e indústria1711,9%20,4%−8,510,7%1,6x24%125
Transporte e logística1610,0%16,2%−6,212,4%1,4x13%−5
Tecnologia e telecom1513,4%18,5%−5,110,1%4,2x27%51
Siderurgia e metalurgia147,1%18,3%−11,211,2%1,4x14%92
Consumo e vestuário1414,4%16,8%−2,410,0%4,1x43%162
Alimentos e bebidas138,1%17,1%−9,014,3%1,4x23%−4
Saúde137,9%17,6%−9,711,4%1,5x15%53
Petróleo e gás910,8%14,9%−4,111,4%1,7x11%11
Saneamento710,0%14,1%−4,110,1%3,4x14%12
Educação710,1%16,0%−5,911,4%1,5x0%9
Todas (235)2359,9%17,1%−7,211,2%2,0x18%50

Fonte: Termômetro de Valor (Altoris), safra de 13/10/2026 (DFP 2025, ICVA v2.1), 235 companhias abertas não financeiras. Diferença: mediana do ROIC menos mediana do custo de capital, em pontos; não é a mediana das diferenças empresa a empresa (−6,7 pontos no total). Medianas por grupo; setores com poucas companhias devem ser lidos com cautela.

Com que números orçar 2027?

Premissas para o orçamento

As premissas anteriores à eleição perderam validade em um pregão: o orçamento deve partir das de hoje.

Três cenários, com Selic, inflação, PIB e dólar ano a ano. Para comparação, o consenso anterior à eleição (Focus de 26/10/2026, coletado antes do segundo turno) previa Selic de 11,75% no fim de 2027 e dólar a R$ 5,15.

Cenário e premissa2027202820292030
Central · os juros que o mercado cobra hoje se mantêm e cedem aos poucos a partir de 2028 Use para orçar
Selic média, % a.a.14,7514,013,2512,5
IPCA, %5,04,54,24,0
PIB real, %1,01,31,61,8
Dólar fim de ano, R$5,605,755,855,95
Adverso · o mercado cobra ainda mais pelo risco fiscal e a Selic fica acima do Central Use para caixa e dívida
Selic média, % a.a.15,515,2514,7514,25
IPCA, %5,65,04,84,5
PIB real, %0,50,81,21,5
Dólar fim de ano, R$6,006,306,506,70
Favorável · medidas fiscais críveis anunciadas cedo fazem os juros cederem Oportunidade
Selic média, % a.a.13,7512,2510,759,75
IPCA, %4,53,83,53,3
PIB real, %1,52,22,52,5
Dólar fim de ano, R$5,305,305,355,40

Como calibramos as premissas. Selic: Central pela curva de juros de 26/10/2026, com devolução gradual do prêmio a partir de 2028; Adverso com prêmio adicional; Favorável convergindo ao Focus pré-eleição. IPCA: Focus mais o repasse do câmbio de cada cenário. PIB: Focus de 2027 (1,3%) menos 0,3 ponto no Central e 0,8 no Adverso. Dólar: PTAX de 26/10 com trajetória coerente com juros e prêmio de cada cenário. São julgamentos da Altoris, explicitados para que cada empresa possa substituí-los pelos próprios.

Leitura Altoris · Em que cenário orçar

Orçamento oficial no Central, porque é o que a curva de juros precifica hoje; como 26/10 foi dia de estresse, a âncora deve ser confirmada pela curva média dos próximos pregões. Caixa, cláusulas de dívida (covenants) e prazo da dívida testados no Adverso. Troca de cenário por gatilho: DI janeiro/2028 acima de 15,5% ou dólar acima de R$ 6,00 por 30 dias aciona o Adverso; DI abaixo de 13,5% e dólar abaixo de R$ 5,30, também por 30 dias, liberam o Favorável. O teste de estresse, na página seguinte, aplica o Adverso ao caixa e às cláusulas de dívida.

O orçamento resiste ao cenário Adverso?

Teste de estresse

O Adverso no orçamento, 2015–2016 nas cláusulas: onde a empresa resiste e onde precisa de proteção.

O teste aplica ao orçamento as premissas do cenário Adverso: juros acima do Central por dois anos, real mais fraco e atividade mais lenta. Não supõe ruptura; supõe que o prêmio de risco observado em 26/10 persista. É o desvio com probabilidade relevante que mais custa quando não está no plano.

PremissaCentral 2027Adverso 2027Central 2028Adverso 2028
Selic média, % a.a.14,7515,514,015,25
Dólar, fim de ano, R$5,606,005,756,30
PIB real, %1,00,51,30,8
IPCA, %5,05,64,55,0

Premissas Altoris; cenário Central ancorado na curva de juros de 26/10/2026, a ser confirmado pela média dos próximos pregões.

Segunda camada · as cláusulas de dívida na magnitude de 2015–2016

Empresa mediana do menor quartil de receitaLucro operacionalCusto da dívidaCobertura de juros
2025, observadobasebase1,2 vez
Cenário Adverso−5%+0,75 ponto1,1 vez
Ruptura nos moldes de 2015–2016−20%+3 pontos0,8 vez

Termômetro de Valor, safra de 13/10/2026: quartil de receita até R$ 1,1 bilhão; 41% das empresas já operam com cobertura abaixo de 1,5 vez. Em 2015–2016, o PIB recuou 6,7% em dois anos, e o volume de vendas do varejo ampliado (IBGE, PMC) recuou 16,5% no mesmo período. Cálculo Altoris, ilustrativo.

O Adverso é o desvio provável; a ruptura é o teste de sobrevivência. Na magnitude de 2015–2016, a empresa típica desse porte deixa de pagar os juros com o lucro operacional. O conselho deve conhecer, antes de aprovar o orçamento, em que nível de queda do resultado cada cláusula de dívida se rompe, e qual é a resposta já decidida para esse dia.

Quais decisões tomar agora?

Oito decisões

Oito decisões de capital para 2027–2030.

Capital e retorno

01

Recalcular o custo de capital, projeto a projeto.

A alta de 2,1 a 2,5 pontos nos juros futuros não se transmite integralmente a todas as empresas: o efeito depende do risco do negócio, da estrutura de capital e da forma de financiamento. Como teste, com 2 pontos a mais no custo de capital, um projeto cujo retorno se concentra entre 8 e 10 anos perde de 14% a 17% do valor presente; um com payback de dois anos, menos de 3%. A prioridade são projetos com valor presente positivo ao custo de capital de hoje e caixa resiliente no Adverso; maturação longa não desqualifica, mas exige provar valor sob juros mais altos. A referência é o custo de capital da própria empresa, não a mediana do mercado (17,1%), base também da remuneração variável.

02

Desalavancar onde o retorno não cobre o custo da dívida.

O ROIC mediano das companhias abertas, de 9,9%, ficou abaixo do custo mediano da dívida após impostos, de 11,2%. Onde isso se repete na empresa, dívida que financia ativos de retorno inferior reduz valor; a decisão depende do retorno marginal desses ativos e do risco de liquidez. Entre as menores, 41% têm cobertura de juros abaixo de 1,5 vez. A desalavancagem deve vir do capital de giro e da venda de ativos que não se pagam, não de ações emitidas em baixa.

03

Tratar o capital de giro como fonte de financiamento.

O ciclo de caixa mediano é de 50 dias. Em uma empresa com receita de R$ 500 milhões, cada 10 dias de ciclo imobilizam cerca de R$ 14 milhões, com custo anual próximo de R$ 2 milhões aos juros atuais. Prazo concedido ao cliente é financiamento e deve estar no preço; estoques e prazos de fornecedores são fontes de recursos.

Orçamento e risco

04

Orçar no Central, com gatilhos objetivos de mudança de cenário.

Orçamento oficial no cenário Central: Selic média de 14,75% em 2027, dólar a R$ 5,60, PIB de 1,0% e IPCA de 5,0%. Junto com o orçamento, o conselho aprova as regras de transição: juros futuros de 2027 (DI janeiro/2028) acima de 15,5% ou dólar acima de R$ 6,00 acionam o Adverso; juros abaixo de 13,5% e dólar abaixo de R$ 5,30, o Favorável; ambos após 30 dias. Cada gatilho traz a resposta definida para investimento, dividendos e contratações. O Central parte da curva de um dia de tensão e deve ser confirmado pela média dos próximos pregões.

05

Proteger a margem nos contratos antes da virada de 2027.

Em 2027, a CBS substitui o PIS e a Cofins; a jornada de 42 horas vale a partir de meados de dezembro de 2026, e a de 40 horas, um ano depois. As cláusulas de repasse de tributos, câmbio e reajuste devem ser revistas desde já, e o custo da nova jornada deve entrar no orçamento por escala e com data, sobretudo no varejo, nos serviços e na indústria que opera em turnos.

06

Proteção cambial seletiva.

Com juros de mercado perto de 15% e juros externos muito menores, o hedge cambial é caro, porque o diferencial de juros entra no preço do contrato a termo. A proteção deve cobrir os fluxos dos próximos 12 meses e as dívidas em moeda estrangeira; no restante, convém privilegiar o hedge natural, como receitas em dólar e cláusulas de repasse.

Balanço e oportunidade

07

Escolher a estrutura da dívida pelo custo total nos três cenários.

Prazo, indexador e proteção se definem comparando o custo total e o risco de cada alternativa nos três cenários, e não por regra geral. Com juros elevados ao longo da curva, alongar tende a compensar; prefixar hoje pode ser vantajoso para quem tem receita previsível e taxa competitiva, e oneroso para quem depende de uma queda rápida dos juros.

08

Comprar quando outros precisam vender.

As ações das empresas menores caíram 27% em um único pregão, e são justamente elas as que têm menor folga para o serviço da dívida. Ativos e concorrentes devem chegar ao mercado. Para quem tem balanço sólido, abre-se uma janela de aquisições e consolidação, avaliadas pela mesma régua: retorno acima do custo de capital recalculado, com a integração no preço.

Método, limites e fontes

Da análise ao orçamento: a mesma régua.