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Estudo técnico · Inteligência econômica

Criação de valor nas empresas brasileiras

Apenas 14% das empresas brasileiras geram retorno superior à taxa básica de juros

AutoresIsmael SantosErik Alencar de Figueiredo
PublicaçãoMarço de 2026
Leitura6 min
Edição originalPDF, 6 páginas
Capa do estudo Criação de valor nas empresas brasileiras

Uma análise do retorno sobre capital investido de 207 empresas — e o que isso revela sobre a real capacidade de geração de valor no país.

Este relatório analisa se as empresas brasileiras conseguem remunerar o capital investido acima do seu custo de oportunidade.

Base de Dados e Metodologia

207Empresas AnalisadasExcl. bancos, fundos e outliers
8,9%ROIC Mediano (5a)Metade do mercado abaixo disso
15%SELIC AtualMeta COPOM Mar/2026
-7,0 p.p.Spread MédioROIC – SELIC

A análise parte de um universo inicial de ~350 empresas listadas na B3 com dados financeiros disponíveis na CVM. Após a aplicação dos filtros de exclusão, a base final compreende 207 empresas.

Critérios de exclusão

  • Bancos e instituições financeiras: Estrutura de balanço fundamentalmente diferente (alavancagem regulatória, capital regulatório vs capital investido). ROIC não é métrica comparável.
  • Seguradoras e fundos: Receitas predominantemente financeiras, distorcem a leitura de retorno operacional sobre capital.
  • Holdings financeiras puras: Consolidam participações sem operação produtiva direta.
  • Outliers (IQR 1,5×): Empresas com ROIC médio de 5 anos acima de Q3 + 1,5×IQR ou abaixo de Q1 – 1,5×IQR foram removidas para evitar distorção por eventos extraordinários.
Métricas e cálculos
MétricaFórmula / Descrição
ROICROIC = NOPAT / Capital Investido Médio. NOPAT = EBIT × (1 – alíquota efetiva ~34%). Capital Investido = PL + Dívida Líquida.
EVAEVA = NOPAT – (Capital Investido × WACC). WACC proxy: SELIC realizada do período (benchmark mínimo de custo de oportunidade).
Período2010 a 2026 (dados anuais). Análises de distribuição: janelas de 5 e 10 anos.
FontesCVM/B3 (demonstrações financeiras consolidadas), BCB (Selic realizada acumulada no ano). 2025–26: Meta COPOM vigente.

ROIC Médio × SELIC × Spread — 207 empresas

Evolução do retorno sobre capital investido vs taxa de juros

ROIC Médio × SELIC Realizada × Spread (ROIC – SELIC), 2010–2026 (%)

Fonte SELIC: BCB / Receita Federal (realizada acumulada no ano). 2025–26: Meta COPOM vigente. Outliers removidos via IQR (1,5×).

O gráfico revela o dilema estrutural do capitalismo brasileiro: o ROIC médio das empresas oscila em uma banda relativamente estreita (5–11%), enquanto a SELIC varia dramaticamente (2–15%). O spread — a diferença entre o que as empresas geram e o que o capital custa — é majoritariamente negativo. Em 13 dos 17 anos analisados, a mediana do mercado não cobriu sequer o custo da taxa livre de risco.

4 de 17Anos com Spread Positivo2012, 2019, 2020, 2021
-8,8 p.p.Pior Spread2015/2016 (crise + Selic alta)
-7,0 p.p.Spread Atual (2026)Pior nível desde 2015

O padrão: O mercado brasileiro gera retornos reais positivos apenas quando a SELIC está abaixo de ~8%. Acima desse patamar, a maioria das empresas destrói valor. Com a SELIC em 15% e sem perspectiva de corte no curto prazo, o spread atual de -7,0 p.p. é o mais negativo desde a recessão de 2015–2016.

Distribuição do ROIC — 207 empresas

ROIC médio por empresa • Histograma por faixas de retorno

5 anos — % das empresas por faixa de ROIC médio

Q1: 5,1% · Mediana: 8,9% · Q3: 12,8% · σ: 6,4%

10 anos — % das empresas por faixa de ROIC médio

Q1: 5,4% · Mediana: 9,1% · Q3: 13% · σ: 6,6%

Na janela de 5 anos, 57,5% das empresas apresentam ROIC médio entre 0–10% (mediana de 8,9%). Na janela de 10 anos, esse percentual recua para 54,8% (mediana de 9,1%). Apenas 14% superam 15% em 5 anos.

Crescimento vs Rentabilidade — Top 50

ROIC médio das 50 empresas com maior CAGR de receita (5 anos)

Top 50 por CAGR de receita — % das empresas por faixa de ROIC médio

Q1: 2,7% · Mediana: 7,3% · Q3: 10,9% · σ: 9,4%

Das 50 empresas com maior crescimento de receita, 64% apresentam ROIC na faixa de 0–10% — pior do que a média do mercado (57,5%). A mediana do ROIC desse grupo é de apenas 7,3%.

Conclusão central: Crescer em receita no Brasil não implica criar valor. As empresas que mais cresceram tendem a ter ROIC inferior à média — crescimento financiado por dívida ou diluição de margens.

7,3%Mediana ROIC — Top 50Abaixo da média geral
8,9%Mediana ROIC — Mercado207 empresas

Por Que Geram (ou Não) Valor

Análise causal dos drivers de EVA

ROIC > 15% — Geradoras de Valor (28 de 207 empresas)

14% das empresas superam a barreira de 15% de ROIC, com ROIC médio de 19,3% no período de 5 anos (2022–2026), margem EBITDA média de 23,3%, alavancagem média de 1,3x e crescimento de receita (CAGR 5 anos) de -0,4%.

  • Eficiência operacional: Margem EBITDA média de 23,3% no período vs 18,5% do mercado — vantagem competitiva sustentável.
  • Disciplina de capital: Alavancagem média de 1,3x no período mantém custo da dívida controlado, ampliando o retorno.
  • Crescimento qualificado: CAGR de receita de –0,4% em 5 anos com ROIC > 15% — cada real de crescimento adiciona valor ao acionista.

ROIC ≤ 15% — Não Geram Valor (175 de 207 empresas)

86% das empresas ficam abaixo de 15% de ROIC, com ROIC médio de 7,3% no período de 5 anos (2022–2026), margem EBITDA média de 17,8%, alavancagem média de 3,6x e crescimento de receita (CAGR 5 anos) de +9,8%.

  • Margens comprimidas: Margem EBITDA média de 17,8% no período evidencia baixo poder de precificação ou custos elevados.
  • Capital ineficiente: Alavancagem média de 3,6x no período com baixo retorno operacional — cada real investido não gera retorno suficiente.
  • Crescimento destrutivo: CAGR de receita de +9,8% em 5 anos, mas com ROIC abaixo de 15% — crescimento não se traduz em valor ao acionista.

Diagnóstico e Medidas Estratégicas

Os dados revelam um paradoxo: as empresas que mais crescem em receita (CAGR +9,8%) são, em sua maioria, as que não geram valor ao acionista. Crescimento, isoladamente, não é sinônimo de criação de valor — e pode até destruí-lo quando financiado a custo elevado. Em um país com custo de capital estruturalmente alto, a busca por eficiência operacional e disciplina na alocação de capital se traduz em retornos superiores. As 28 empresas geradoras de valor demonstram isso: margens robustas (23,3%) e baixa alavancagem (1,3x) compensam o crescimento modesto e entregam ROIC de 19,3% — bem acima do custo de oportunidade.

Medidas Operacionais

Redução de custos não essenciais, ajustes de preços, otimização do capital de giro, racionalização das operações e implementação de controles rígidos sobre despesas operacionais.

Medidas de Desinvestimento

Reavaliação do custo e retorno dos investimentos, redução do CAPEX em ativos subperformantes e desinvestimento de ativos não essenciais para liberar capital.

Medidas de Financiamento

Adequação da estrutura de capital para melhorar o fluxo de caixa — ajustar nível de endividamento e retornar capital aos acionistas quando alinhado à geração operacional.

“Em um ambiente de custo de capital elevado, a criação de valor torna-se rara. O desafio estratégico das empresas brasileiras não é apenas crescer, mas fazê-lo de forma economicamente sustentável — gerando retornos acima do custo do capital.”

— Altoris Estratégias de Valor · Março 2026