As empresas brasileiras vivem hoje sobre um castelo de areia financeiro construído ao longo de anos de juros altos, margens apertadas e uma transformação profunda no sistema de crédito.
Endividadas e com resultados fracos, muitas foram expulsas do sistema bancário tradicional e migraram para fundos, FIDCs, factoring e outras modalidades de financiamento — alternativas mais rápidas, porém muito mais caras.
Se o crédito bancário já custa, em média, 23% a 25% ao ano, as operações alternativas adicionam mais 5%, em média. Isso sufoca o fluxo de caixa, impede investimento e empurra empresas para um ciclo de dependência crescente, no qual cada rodada de financiamento apenas prolonga o problema. A qualidade do endividamento piorou, e não há oxigênio para o curto prazo.
Ao mesmo tempo, o ambiente de recuperação judicial se mostra cada vez mais amador. Planos mal construídos, renegociações superficiais e pouca atenção à resiliência do negócio resultam em soluções incompletas.
No Brasil, RJ ainda se resume a renegociar dívidas, não a reestruturar empresas. Isso gera um ciclo de quebras repetidas, perda de valor e queima de capital.
Em 2026, o país deve enfrentar uma nova onda de RJs e falências, com deságios agressivos e impactos diretos sobre credores. O risco de contaminação do setor produtivo para o setor financeiro cresce rapidamente — especialmente porque os fundos hoje sustentam uma fatia relevante das operações de crédito.
O fator mais perigoso, e ainda pouco percebido, é simples: quando os fundos começarem a perder capital e travarem novas operações, muitas empresas simplesmente vão parar.
Sem capital de giro, sem rolagem de dívida e com margens comprimidas, milhares de companhias podem entrar em colapso quase simultâneo. O risco sistêmico é real — e silencioso.
O castelo de areia está de pé, mas cada onda do mercado leva um pouco de sua base.
A questão já não é se haverá ruptura. A questão é quando.
